sábado, 27 de novembro de 2021

 

Philosophus Tavernisticus #13

 Medo

 

 

Nunca foi tão fácil e óbvio escolher um assunto ou a primeira palavra para uma conversa. Ainda mais com você aí deitado, nesse sono profundo. De tudo que ela envolve: Fofocas, ironias, alegorias, elementos de narrativa, tempo, cenário, conflitos e ou personagens, esse é o único ponto que não terei trabalho: o tema e a sensação que vai percorrer todo nosso colóquio. Todavia, debruçar-me sobre minha própria história é o que mais amedronta. Reviver memórias e considerar que o que está estabelecido não é só uma possibilidade. É a realidade mórbida de um futuro que chegou, não o percebi; e, quando me dei conta, nada pude fazer para evitá-lo. Deixe-me fazer as digressões necessárias. Já que você só vai ouvir mesmo, nem vou chamar mais de conversa, vai ser um monólogo.

Lembra-se de quando era pequeno, nos idos e bregas anos oitenta? A sensação de “vai estourar a Terceira Guerra Mundial?”, era a primeira vez que sentia seu destino não guiado por suas mãos. Naquela época não entendia porque nomeavam esse evento como se a continuidade numérica, a sequência não pudesse ser evitada. E, mesmo criança, entendia que os nomes foram criados para facilitar as aulas de história, para situar os eventos. Como a possibilidade era noticiada todos os dias nos periódicos televisivos, menino com a cabeça cheia de ideias e com aguçada criatividade, pensava como poderia viver uma situação horrenda, tal aquela ilustrada nos livros ou representada nos filmes americanos. Foi seu primeiro tormento.

Você não era como Indiana Jones que lutava com nazistas, nem mesmo um Luke Skywalker que explodia a Estrela da Morte. Era um menino. Tudo era alimentado por ecos da Segunda Guerra e profetas do apocalipse propagavam o prenúncio da Terceira. E jornais, revistas, filmes, livros, letras de músicas só faziam alimentar o seu martírio. Você não se sentia livre, seguro. Havia uma insegurança e o pior é que isso era reforçado até mesmo por desenhos animados. Como escapar? Lendo.

Graças a uma tia, você lia muito. Perigos no Mar de Aristides Fraga Lima, seu primeiro livro sem figuras. Lembra-se? E aí iniciou uma grande série de leituras de entretenimento puro: Marcos Rey era seu preferido. Sabe Deus o porquê, depois de ler todos os livros indicados para sua idade, um dia sua tia lhe emprestou 1984 de George Orwell, devia ter uns doze anos. Mais uma vez a sensação de insegurança; nessa época, sua noção de estado totalitário era toda moldada por esse livro. A arte parecia lhe dar lições. Principalmente de como o homem é carregado de barbárie; a civilização era apenas uma casca para disfarçar a sombria e funesta essência do humano. Em sua ânsia de aprender, você lia, mesmo quando a leitura era nauseante.

Houve, então, uma ruptura com a leitura de fruição, talvez motivada por essas leituras duras. A última foi Um Lugar ao Sol de Veríssimo. Angustiava, sufocava. Esse foi o ponto de quebra. Mas como estudava Música, lia livros de teoria musical, história da música, harmonia. Passou a entender o livro como uma ferramenta de aprendizado. Valorizou o livro, deu sentido à sua existência. Era a tecnologia disponível para o pedagogismo que encontrou nas páginas de livros didáticos. “A escrita era o que dividia a história do homem.” Ouviu essa frase e guardou para si. Achava a escrita valiosa, poderosa. Livros eram armas. Quando assistiu, em um filme antigo baseado no livro Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, livros alimentarem fogueiras. Ficou chocado. Tudo era distopia? Tudo era autoritarismo? A angústia de talvez viver essas situações lhe ia e vinha. Essa eterna luta do Bem contra o Mal. E parecia que o Mal sempre era mais forte, sempre encontrava um meio. E o Bem sempre dependendo de uns poucos idealistas. Desarmados, fracos, indefesos. Que se não houvesse um milagre ou um Deus ex Machina, toda sua luta era vã. Mais tarde professores de Língua Portuguesa lhe disseram que isso era culpa do Teatro Grego. E que cineastas, roteiristas e escritores, algumas vezes, com preguiça de pensar em algo novo, se valiam desse recurso.

Todos os dias seguiam assim: com filmes violentos, guerras que se sucediam em noticiários vendendo a ilusão da liberdade. E no fim é isso mesmo: a normalidade é uma ilusão.

Eis que um dia, não me lembro de qual, mas após um movimento na União Soviética, você viu no noticiário que o muro de Berlim caíra. Você notara que naquele momento trocaram Guerra Fria por Perestroika e a Glasnost?, nem lembro-me o que realmente significam essas palavras, mas parece que o mundo estava caminhando para algum lugar mais bonito. Aos doze anos, você respirou muito aliviado. E como. Não haveria mais a tão falada guerra nuclear, seguida de o inverno nuclear, onde o Sol seria tapado pelas cinzas das explosões e toda vida vegetal e animal seriam devastadas. Não mais morreríamos de fome. Esse era o fim proclamado pelas ondas de rádio e TV. Não mais. Caíra o Muro. As nações poderosas eram aliadas.

Acabara a infância. Uma Nova Ordem era avistada ao longe, no horizonte da História.

Em sua adolescência, nos anos noventa você viveu uma época de ouro. Não havia mais o apocalipse nuclear. O perigo agora – pelo menos na ficção – vinha do espaço. Livros sobre conspirações encobrindo avistamentos de óvnis. Seriados de TV. Parecia um remake dos anos cinquenta. Você adorava. Estuda música, dava aulas de violão erudito. Lia revistas sobre ufologia, comportamento, cinema. Livros? Só os de história da música, arte. Nada de deleite, fruição. Só técnica, só para aprender. Foi a sua década de estudo, do surgimento de novos ideais, novos conceitos. De namoradas, viagens, bebedeiras. Ilusões e desilusões amorosas. Uma loucura. Mas havia uma leveza, um otimismo, Não havia mais terror. Decadência e totalitarismo? Apenas em livros cyberpunks que você olhava as capas, mas nunca lia. Conhecia o conceito, mas nem considerava perder tempo lendo. Queria dividir seu tempo em ler para aprender e tocar o mais que pudesse até sentir as pontas dos dedos doerem. Foi intenso. Memórias dignas de guardar na mente.

Mas em onze de setembro de dois mil e um. Tudo voltara ao começo.

Era uma terça-feira, você nunca esqueceu. Um amigo liga para seu telefone e diz: “Corre! Liga a TV! Estão atacando os Estados Unidos”. Você desliga o aparelho telefônico, liga a TV a tempo de ver o segundo avião bater no prédio, fato transmitido ao vivo para o mundo todo. Os jornalistas que apresentavam a notícia impensável, claramente não sabem o que falar. Tamanha era a perplexidade que o silêncio era assustador. Nesse momento a música “The sound of Silence” de Simon e Garfunkel faz total e desolador sentido. Tudo volta. Toda a sensação de angústia. Toda a tristeza de só enxergar incertezas geopolíticas na ameaçadora face do futuro que novamente se avizinhava estava lá, olhando para você. Com aquele meio sorriso de anti-herói. Um personagem cinza. Nem bom nem ruim. Pragmático. Estava lá para realizar um trabalho. Apenas isso. Realizar um trabalho, não importando quão sujo ele fosse.

Nem cinco segundos depois de assistir a cena dantesca, você diz para si: “Pronto! Agora começa a Terceira Guerra Mundial.”.

Mais uma vez essa ameaça, esse terrorismo, esse tom apocalíptico. Em mil novecentos e noventa e nove, apesar do Bug do Milênio e das profecias religiosas, o mundo não acabara. Dera certo. Não havia ameaças reais. Somente as possibilidades que, mesmo assustando um ou outro, não eram tão desgraçadamente nefastas quanto o poder da nuvem de destruição nuclear que, pairava sobre todos, nos anos oitenta. Bom, pelo menos para você, claro.

Era como se cada década tivesse uma característica tão amplamente diferente que você nem mesmo se reconhecia. Não por simples evolutivo crescimento, mas por ter que se adaptar às novas realidades.

E nessa nova década, nesse novo milênio, mais guerras. Não quero nomeá-las. Você sabe de quais estou falando. É a guerra que perpassa todo o assunto de nossa conversa/monólogo. Guerra. Guerra. Agora televisiva, em tempo real. E guerras de narrativas, versões versus fatos. Onde estava a verdade? Época de pós-verdade. Momentos de meta-história. Nada era real. Liberdade? Semiliberdade? Escravidão? Era nessa espiral tormentosa, rascunho de furacão, que você se encontrava. Novas doenças, novos nomes para dores antigas. Depressão, neuras, bipolaridades. Remédios, drogas, coquetéis. Discussões de lugar de fala, liberdade de expressão, costumes, comportamento, cultura instantânea que em instantes perecia. Tudo efêmero, nada perene. Chega.

Em dois mil e dois. Em meio à desgraça global. Você ganha um livro: O Senhor dos Anéis. Ah, Tolkien! Onde você esteve esse tempo todo? Onde você esteve? E Harry Potter! Ah, o escapismo. A fruição voltou. Esqueça o Cyberpunk, a ficção científica. Esqueça a guerra. Não a do Anel. As dos homens, dos políticos.

Você mergulhou nesse universo. E tanta coisa ficou clara. Tantos desenhos, elementos de narração, cenários, jornadas, tudo se ligou. Os jogos de computador, filmes, histórias em quadrinhos, brinquedos! Tudo tinha uma ligação. Você era fruto dessa coisa toda. Em outros tempos era chamado de nerd. Agora era geek. Estrangeirismos. Ora pejorativos ora elogios. Mas não fazia diferença. Você estava empolgado pelas ligações. As referências, as influências. Tudo fez sentido. Esqueceu por muito tempo a sensação que lhe atravessava a alma. Rasgava a esperança. E imergiu nesse mundo de fantasia. Chega de distopias. Até aparecia uma ou outra, mas você, formado, trabalhando, ligou a suspensão da descrença em sua mente e nadou nos oceanos dos mundos criados por esses autores do fantástico. “Deixe que acabem com o mundo, não vivo mais nele”. Quero viver em fluxos de consciência, jornadas de heróis ou heroínas. Deixem as falácias políticas para lá.

A década segue em direção ao seu final e algum profeta da infelicidade, do infortúnio, diz: Segundo os Maias, o mundo acabará em dois mil e doze. Ah, não... Tudo de novo? Nem ligou dessa vez, acostumado aos constantes fins do mundo, preferiu continuar com seus livros e músicas. E o mundo não acabou. A não ser no cinema.

E a vida seguiu. Sobreviveu à profecia Maia. Há uma falsa sensação de segurança. Um torpor, uma anestesia. Entretanto, lembra-se do “não vai ter copa”? Aquelas manifestações que deram um alento ao desejo de existir uma “Primavera Tupiniquim”, como a “Primavera Árabe”? Não houve. Foi só um traque. Depois outro impeachment, alguns gritos de não vai ter golpe. Uma crescente polarização política. Uma nova sensação. A do terror somado à ignorância. Tempos sombrios. Elegemos um Palpatine, só falta dissolver o Senado como o Imperador fez em Star Wars e está feita a imitação da ficção. Porque é assim que você se sente. Sente-se preso nos livros distópicos. A fantasia escapista não lhe salvou. E por fim essa doença. A pandêmica doença que nem nos mais loucos sonhos literários você leu.

E agora, flutuando diante de você, como diante de um reflexo no espelho, olho para os aparelhos ao seu lado e vejo o monitor cardíaco, com uma linha luminosa plana, emitindo um som contínuo. Agora em outro plano, iniciarei uma nova jornada.

 

#música #culturapop #escrita #literatura #filmeselivros

 

Philosophus Tavernisticus #12 

 Discussões literárias

 

Então...

Sempre ficamos falando de coisas que envolvem livros. De formato, estrutura, conteúdo, mercado, linguagem, e as eternas brigas sobre o que funciona e o que não funciona.

Vamos então ao trabalho. Vou escrever aqui um projeto que desenvolvi há dois anos, pouco mais talvez, quando tive uma crise existencial. À época já estava com dois livros publicados, pensando no terceiro e me deparei com uma dúvida: E outras histórias? Será que consigo desenvolver ou foi só um momento de iluminação criativa? Impus-me um desafio. Criar várias histórias que pudessem vir a ser trabalhadas isoladas, mas que fizessem parte de um todo. Como se contasse a vida de família de uma mesma cidade, ou moradores do mesmo prédio, ou passageiros do mesmo trem, navio, sei lá. Todas seriam perpassadas por uma coisa em comum, caso não fosse o mesmo navio, poderiam ser um crime ou uma guerra ou uma venda de beira de estrada. E escrevi.

Vocês verão no decorrer das próximas semanas essas histórias.

Quem sabe um dia, eu as termino. Ou não.

Ainda não sei o que é fim. Nem sei se há vida após a morte, se se amanhã um meteoro colidirá com a Lua. Como definir o fim de uma história?

Pensaremos nisso no futuro.

A seguir o prefácio do projeto.

 #cinema #literatura #culturapop #música #filmeselivros

 

Philosophus Tavernisticus #11 

 A verdade sobre a literatura

 

Eu sempre imaginei uma coisa comum a todos os livros: função pedagógica. Entretanto, um dia, lá pelos meus oito anos de idade, descobri que poderiam servir, também, para a diversão e o entretenimento.

Ah! Lembrando que aprendi a ler antes dos sete anos. Àquela época minha visão era de que livro eram fontes de conhecimento, objetos mágicos detentores de saberes ancestral. Verdadeiros condutores dessa energia que nos move em direção ao novo. Os livros eram os lugares onde estava o conhecimento da humanidade. É que em casa meu pai tinha uma coleção de livros enciclopédicos: Física, Química, Descobertas e Invenções, etc. Não havia nada além. Daí o motivo do pensamento voltado à função pedagógica.

Já alfabetizado essa visão mudou quando após ler muitos gibis da Mônica, do tio Patinhas, etc. Uma tia me apresentou um livro chamado Perdidos no Mar, de Aristides Fraga Lima. Então me deparei com a função de entretenimento. Leitura de fruição. Que também não deixa de ter pedagogismo. Mas calma. Não vou me ater às questões acadêmicas. Aqui é para desnudar a cortina de mentiras contadas a você a vida toda. Que literatura é arte superior. Que escritores são pessoas especiais, que detêm poderes ocultos. Essas bobagens.

Então, vamos às revelações.

Acredito que a literatura começou de forma oral. Claro. A escrita e o registro vieram depois. A análise da escrita pode até separar a história da humanidade em antes e depois da escrita dado o poder de transferência de conhecimento e quantidade de saberes que são registrados e guardados. Relatos orais podem e são contaminados por uma série de fatores externos que podem corroer a verdade e tal. Mas isso também é outro assunto.

Vamos nos atentar ao surgimento da literatura na humanidade. Desconsidere a escrita. Depois a gente analisa isso.

Voltando...

A literatura começou quando, lá na era primeva do Homem, alguém saiu para caçar e na volta à aldeia, não tendo nada, nenhum produto do trabalho e vendo a frustração de quem o esperava com o jantar, teve que inventar uma história.

“Matei uma preguiça imensa, mas um bicho carnívoro sentiu o cheiro de sangue e a roubou de mim. Era minha vida ou a caça.”

Isso é uma tradução livre, lógico. Na verdade, ele disse:

“ada bungulunga xibiu monstrão come come xanguitá.”

Vendo-se livre do julgamento injusto da aldeia, por não conseguir caçar, nosso anônimo caçador sem sorte, viu que “Histórias de pescador” serviam para aplacar ânimos contendedores. Era um homem que não queria briga. Ali também nasceu a filosofia “deboista”. Claro que o primeiro gênero literário discursivo foi a “história de pescador” e tudo que veio depois: as intertextualidades, interdiscursividades, intergenericidades são produtos desse gênero primitivo, que moldou a história humana.

A Teoria Literária e a Literatura Comparada negam-se a estudar e esmiuçar esse fato por medo de diminuir a aura mágica que escritores possuem. No fim, a literatura surgiu para salvar a pele de um caçador incompetente, embora excelente mentiroso.

Já disse isso para um aluno. Ele, que enfrentava um bloqueio ao ser solicitado para escrever um conto que valeria nota, disse-lhe:

“Nunca mentiu para sua mãe?”

“Nunca contou uma mentira sobre um peixe imenso que quebrou a vara em uma pescaria?”

“Nunca exagerou uma situação só para fazer graça em uma fofoca?”

Amigos. Ele arregalou os olhos. Olhos que faiscaram frente à descoberta da pedra filosofal, frente a maior lição que um curso de redação pode lhe dar. O segredo da literatura.

Invejosos vão falar que quero destruir essa era de coaching literário, que sou reducionista, que quero ofender a academia. Mas não. Quero desvelar a verdade. Romper as amarras acadêmicas que lhes prendem a pensamentos que bloqueiam a criatividade.

Vá!

Escreva!

Seja o caçador!

Seja o pescador!

Converse com a vizinha que sabe as coisas do bairro!

Sente-se à mesa de bar onde os fofoqueiros profissionais habitam!

Escreva sem amarras!

#culturapop #literatura #livro #cinema #entretenimento #opinião #filmeselivros #nerdices

 

 

Philosophus Tavernisticus #10

 Erudito Versus Popular II

Não iria me estender no assunto da semana passada, mas... como fizeram um auê em relação aos preços (altíssimos) das inscrições para o prêmio Jabuti (reclamarão por causa da letra minúscula usada em prêmio), resolvi usar a temática anterior.

Vamos lá. É caro. É caro e ponto. Devido a isso, somam-se os adjetivos elitista e excludente. Autores independentes pagam R$457,00. Muito dinheiro para uma inscrição. É um filtro?

“Ah! Mas teriam 500 livros de autores independentes para serem lidos. Fica inviável.”

Repense o edital. Crie novas formas, critérios, maior número de avaliadores.

“Não é prêmio de várzea.”

Para isso não tive resposta. Só confirmou que é realmente elitista e usa o poder econômico como régua de parâmetro.

Opa! devo avisar, atrasado, que as frases entre aspas foram faladas a mim, quando me posicionei quanto ao preço.

“Não é para premiar livro de historinha.”

Também confirma minha posição.

“Mas o jabuti não é prêmio de várzea, não tem que ter mil independentes mesmo.”

Essa última frase além de preconceituosa, só demonstra que a pessoa não entende como funciona o mercado.

É da quantidade que se extrai a qualidade.

Todas as frutas de uma macieira são perfeitas?

Todos os grãos de café de uma planta cafeeira são perfeitos?

Sempre são selecionados. Seleção é palavra que demonstra significado conhecido: escolher, separar, selecionar. E tem um que gosto: Escolha feita com critério e fundamentada nos motivos do fim que se quer obter. Quero o melhor? Procure em todos os lugares, para ter certeza que o melhor foi selecionado e para simplesmente ser justo.

Queria o responsável por essas falas arrogantes e preconceituosas entendesse que o talento pode nascer em qualquer lugar.

Ninguém nasce com uma plaquinha indicando que é possuidor desse ou daquele talento.

Ainda mais no país do analfabetismo funcional, da educação vilipendiada diariamente. Usada apenas em anos bissextos como devaneios políticos, que induzem a alucinação coletiva em busca de dias melhores.

Entristece-me muito. No fim entendi que a pessoa fez ataques velados à minha pessoa. Foi uma questão pessoal recheada de inveja destilada em barris de carvalho, com tons de soberba e aromas de orgulho ferido.

Porque no fim, eu escrevo, publico, ele não.

Brigo pela democratização da arte. Literária ou musical. Brigo contra esse brilho olimpiano que tentam revestir o erudito. Alguns chamariam de gourmetização. Eu chamo de idiotice mesmo.

Lembro-me de que em fins de 1999 eu andava pela livraria Saraiva que ficava no Shopping Center Norte em São Paulo e havia uma sala separada com ar condicionado para os cd’s de Jazz e Música Erudita. Eu, como músico erudito, formado em conservatório achei extremamente ofensivo, baixo, vergonhoso, elitista e excludente. Jazz, música de negros pobres que o mercado fonográfico “gourmetizou” para vender para brancos ricos (mas isso já é outro assunto de 50 páginas, rs). Achei a sala da Saraiva de extremo mau gosto. Mas é isso. Fica aqui o protesto.

Em tempos de livrarias falindo, fechando, demitindo funcionários, não repassando vendas para editoras, ainda há imbecis que acham que a arte é coisa para vender aos ricos. Faltam-lhes talvez entender que a expressão humana é... humana e não de um punhado exclusivo de intelectuais que se acham melhores, pois escrevem com palavras que poucos entendem o significado.

E como disse Saramago:

Somos todos escritores, só que alguns escrevem e outros não.

 

#culturapop #literatura #livro #filme #cinema #opinião #literaturanacional #autornacional

 

Philosophus Tavernisticus #9

Erudito Versus Popular

Essa disputa sempre rondou minha vida como artista. É... Às vezes esqueço-me de afirmar-me como artista. Eu sou e ponto. Então... Como artista da música, eu naveguei com um pé em cada canoa: a canoa erudita e a canoa popular. Como intérprete de violão clássico, jamais me estabeleceria financeiramente da maneira que queria. Morava em cidade pequena, longe dos grandes centros culturais, lá nos anos oitenta. Internet? Só em ficção científica. Bom. Por isso eu tocava violão clássico, guitarra, viola caipira, dava aulas e tudo que aparecia. Engraçado que vivi uma época onde as crianças ganhavam violão de presente no natal e em janeiro vinham até minha casa para aprender e isso era bom. Mas tenho amigos que optaram apenas pelo ensino do erudito e diminuíram muito sua amplitude de trabalho. E sofreram com as dificuldades que apareciam. Por que optei navegar nos dois oceanos distintos? Primeiro por que um alimenta o outro. Eu deveria escrever umas cinquenta páginas explicando tudo, mas não é nem artigo acadêmico, nem livro. Vou tentar resumir...

Como eu queria viver de música, não importava o tipo de trabalho. Eu queria tocar, ensinar, viver com o violão ou a guitarra no colo. O resto é bobagem. O resto é rótulo que a indústria fonográfica criou para facilitar a venda. A música é uma coisa só. O século XX que estragou tudo. Recomendo a leitura do livro “Maestros, obras-primas e loucura – a vida secreta e a morte vergonhosa da indústria da música clássica” de Norman Lebrecht. O livro trata especificamente da indústria da música clássica, mas dá para fazer ligações com o que quero discutir.

Vamos pensar lá em 1877, quando o Thomas Edison inventou o fonógrafo (aqui também precisaria de mais 50 páginas para explicar tudo... Resuminho sendo necessário). Então está. Inventaram um aparelho que grava sons. Como vamos ganhar dinheiro com isso? Alguém deve ter pensado: vamos gravar música. Por que até então a música só acontecia ao vivo. Só existia durante a execução do artista ao piano, ao violino, ao violão. Foi um momento magnifico. Música agora poderia ser levada consigo a qualquer lugar. Então Thomas Edison cria a Edson Records e começa a comercializar música. Virou produto, precisa de rótulo e por aí vai.

Acho que já dá para começar a falar sobre a minha tese. A disputa entre o Erudito e o Popular.

Nunca fiz distinção. Para começar tenho que deixar isso bem claro.

Sempre adorei tanto Bach e Villa-Lobos quanto Dilermando Reis e Canhoto. Música boa de qualidade não importa a origem. E tenho que lembrar que muitos temas “eruditos” são coisas que compositores colheram com músicos ciganos, etc.

E na literatura? Como o Guto faz?

A mesma coisa. Não acredito que só o cânone serve ou presta. Leio de tudo. Gosto de passear nos lugares que ninguém anda. Ermos, escuros. Subterrâneos, escondidos. É ali que a coisa acontece. Imagina se a gente só lesse tomos que passam por crivos acadêmicos. Apenas músicas de compositores com títulos de doutores em música. Não é assim que acontece. A arte nasce em qualquer lugar, em qualquer tempo. Nada impede da arte acontecer. Veja a pintura rupestre e ou os instrumentos encontrados em cemitérios descobertos em sítios arqueológicos. A arte, a expressão é intrínseca ao humano. O resto é rótulo para a prateleira das lojas. Ou você vai me dizer que o samba surgiu nos cantões acadêmicos, nas bibliotecas? Hum... Não surgiu, né?

E é isso. Como sempre apenas a minha irrelevante opinião.

Deixando claro que a erudição me importa muito para explicar de onde viemos e apontar possíveis caminhos. Mas ela, se não se manifestar, não impedirá a arte de subverter a terra arrasada. Ela vem depois. Para organizar e refletir a explosão da arte contida em cada humano.

Comente, por favor. Converse comigo.

Senão da próxima vez escrevo as cem páginas que deixei de lado.

 #culturapop #literatura #cinema #livro #filmeselivros #erudito #popular #opinião

 

Philosophus Tavernisticus #8

Constância

Não. Não é sobre uma mulher. Poderia ser, até... Mas nesse caso não é. Aqui trataremos a constância como aquela coisa que faz diferença em tudo, desde aprender um instrumento e ou fazer uma dieta. Coisas óbvias que ninguém dá bola.

Pensando em meus textos lá do começo, vou aqui continuar as dicas sobre minhas maneiras de trabalhar a escrita.

Primeiro devo dizer que escrever semanalmente para o Literatura Errante já atende a alguns princípios que tento seguir. Um deles é manter um ritmo, uma frequência, uma constância, oxi! Olha ela aí de novo.

Como já devo ter falado anteriormente, sou músico, estudei violão erudito e tal, mas enveredei pela literatura. Há uma coisa que podemos estabelecer como um paralelo, nas duas expressões artísticas, a ideia de que treinar facilita o aprendizado. Não. Não é decoreba ou adestramento. É desenvolver uma familiaridade ou intimidade com o processo. Não adianta saber vários termos em inglês; infodump, cliffhanger, storytelling, plot, plot twist e saber todas as etapas da Jornada do Herói. Não adianta se você não escrever, não se arriscar, conhecer pessoas, amar, ter raiva, se frustrar, viver. Ah! E ler muito. E claro, com constância. Já falei sobre observação e coletar um repertório de vivências. Mas se não sentar e escrever não adianta nadinha de nada.

Esqueça todas as regras e todas as dicas, mas sente-se e faça alguma coisa.

Escreva, leia, leia em voz alta, leia depois de uma semana. Estabeleça prazos, mas não deixe de escrever.  Faça rascunhos, tenha um caderno por perto, escreva à mão, à máquina ou no teclado do computador. Mas escreva. Rasgue as amarras da sua alma assombrada e conte seus medos, suas angústias, misture ficção à realidade em que vive. Imagine-se diferente, ou desabafe. Deixe seus fantasmas ditarem suas palavras. Desnude-se. Na pior das hipóteses alguém vai ler e achar bom ou ruim. Mas você não vai perder uma perna por isso. Eu acho...

Escreva para você em primeiro lugar. Sempre você será a primeira e mais sincera audiência. A mais verdadeira crítica. E se de tempo. Sempre vai achar que tem algo a melhorar. Mas isso é bom. Tenho medo de acertar e nunca mais escrever. Quem sabe o cerne de tudo seja esse: A eterna busca pela perfeição. O desejo de superação pessoal. A necessidade de encontrar a escultura perfeita ou a música definitiva, a fotografia perfeita. A obra que reúna em si a mais pura expressão humana e a mais poética declaração da habilidade de expor a emoção mais sublime. Ou pelo menos a tentativa eterna de realizar essa tarefa.

Quem saberá quando isso ocorrerá?

A genialidade nasce em qualquer lugar. Desistir não é opção. Seja constante. Jamais desista. Escreva.

Até semana que vem.

#literatura #filmes #técnicaliterária #literaturanacional #culturapop #cinema

 Philosophus Tavernisticus #7

A razão da escrita

 

Acabei de ler o prefácio de meu livro preferido e uma frase me tocou.

Acho que nada é feito sem motivo. Mesmo que seja um motivo simples ou banal, ele estará lá, no início de tudo.

Escrever semanalmente para este blog me oferece o motivo. Semanalmente, apenas decido o assunto para um novo, ou pego algum texto pronto e abasteço o espaço em branco da página de postagens.

Acho interessante o que a rotina pode promover. Não acredito muito em inspirações divinas ou mágicas (que acontecem, mas não dá para ficar contando com a sorte), por isso o esforço e a constância me são importantes. Pode ser que a inspiração seja bissexta. Não sei... Vai que não aparece...

Sendo assim, vamos ao trabalho.

Antes, eu tinha pensado em continuar falando sobre Narratologia, mas acho que não quero mais. Vou falar sobre a frase do prefácio de meu livro favorito:

“Quis fazer isso para minha própria satisfação, e tinha alguma esperança de que outras pessoas ficassem interessadas nesse trabalho, [...]”.

Antes que fiquem bravos comigo, esse é o prefácio do livro “O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel.”.

Estou relendo a trilogia. Por pura diversão. Talvez lá no fundo exista uma busca de inspiração, mas na primeira camada de leitura é pura diversão, insisto.

Sabe por qual motivo? A vontade de me transportar para o primeiro amor. Hoje a Literatura é meu trabalho, meu objeto de estudo. Leio muitas coisas para analisar, estudar, aprender. Mas em alguns momentos devemos parar e lembrar o motivo inicial. Você já se perguntou como escritor, o motivo de tudo? Fama, sucesso, grana, reconhecimento? Eu tenho questionado essas coisas. Se a busca por produzir uma obra literária de sucesso e que seja lida e vendida aos borbotões, encontre a resposta em uma produção em série de trabalhos vazios. Escutei uma conversa que me levou a essa questão: “Ah, meu amigo trabalha na editora responsável por esse concurso e me disse que o procedimento de escolha é esse: Primeiro; vão ver se a sinopse e a defesa da obra são chamativas; ou interessantes. Caso sejam, o próximo passo é ler determinadas páginas onde se encontram os plot twists ou pontos chaves na história. Aí se isso houver, irão ler umas quarenta ou cinquenta páginas.”.

Está bom... Fiquei pensando: Tal página terá um plot twist, ou um cliffhanger, e não pode ter infodump? E também deve ter, em tal capítulo, um Deus Ex Machina ou um Diabo Ex Machina? Será que a Miojização chegou à Literatura? Será que além do Sertanejo e do Pagode Universitários teremos a Literatura Universitária? Quem não entendeu a comparação talvez seja uma pessoa feliz. Algumas vezes não entender certas referências é uma dádiva, uma benção. Será que chegamos a Era da Fordização (isso seria a utilização do fordismo – um sistema de produção industrial em série) ou Taylorismo da Literatura, melhor dizendo, do mercado literário. Sim, estou me repetindo, já falei esses termos em outros textos. Mas são os ecos da produção artística em série, destruindo o conceito que Tolkien seguiu ao escrever seus livros. Bom, pelo menos é isso que acho.

Eu entendo o conceito de Tolkien como o fazer a arte pela arte, fazer pela satisfação de criar ou de simplesmente descarregar as histórias que invadem nossas mentes e nos obrigam a dividi-las com os outros.

Não quero dizer o que é certo ou sei lá o quê...

Só quero pensar e ou convidar à reflexão.

Será que teremos que seguir essas regras de mercado? Será que tudo tem que seguir as receitas de bolo? Mas e o tempero? Vichi... Não sei se essa analogia funciona. Quais seriam melhores? Comparar com a Indústria da Música? Tenho certeza que vão pensar: Ah!, mas (sim, depois de uma interjeição não precisa escrever com letra maiúscula) se o cara for bom, ele ou ela vai encontrar meios para quebrar essa constante. O talento sempre vence. Sim, eu concordo... Mas será que estão tentando quebrar as regras da miojização ou estão cegamente tentando fazer tudo para ser o próximo produto instantâneo da prateleira? Há quem se lembre dos clones de Chitãozinho e Xororó, aquela enxurrada de duplas com o mesmo corte de cabelo. Ou das cantoras que não sabemos se é essa ou aquela dupla. Algumas vezes até os nomes são parecidos para enganar aos incautos. Agora me parece que a moda é a barba e o corte de cabelo. Está bem, nada contra. Cortem os cabelos e usem as roupas que quiserem. Se a dupla está bem com isso e se sente bem, ótimo. Mas, me pergunto se é uma coisa mercadológica apenas. Posso comparar, essa questão das roupas e visual, aos nomes de livros com a “Garota” no título. Ou a “Menina”. Acho que se colocarmos essas palavras no título, as vendas serão automaticamente impulsionadas.

Achei de extremo mau gosto, os tradutores do livro, “Florence and Giles”, utilizarem o seguinte título em português: A Menina Que Não Sabia Ler.   

Não sei se estou sendo claro. Se não, o texto não se aplica aos meus interesses. Mas é isso. Eu quero que a razão de minha escrita seja a satisfação. Seja o prazer da leitura. Tanto o meu próprio, quanto o dos hipotéticos leitores de minha feitura literária (antes de Feitura, escrevi Produção – para não causar maus entendidos, preferi trocar).

Então é isso. Lanço a pergunta:

Qual a razão da escrita?

P.S: Lembrando que quero ser lido e vender, rs.

P.P.S: Sem hipocrisia, entendo as necessidades do mercado, mas é necessário tudo obedecer às regras? Ou se encaixar em um padrão?

Até a próxima! 

#opinião #literatura #cinema #culturapop #livro #filmeselivros

 

Philosophus Tavernisticus #6

 

A estranha vida de um sonhador

Atualizado: 9 de Out de 2020

 

A vida ora traz eventos que desaguam em oportunidades e, ora traz ações onde nossas ambições e sonhos convergem e se realizam. Mesmo que, em outro momento, o planejamento não aconteça. São as tais conspirações universais que nos levam ao almejado sucesso.

Acho que foi assim que ocorreu comigo.

Um dia falei para meu pai que queria aprender a tocar violão para tocar na missa. Alguns anos depois estava dando aulas de violão erudito. Estudei tanto e me dediquei tanto que toquei em missas pelo Brasil inteiro durante anos. Me profissionalizei em um trabalho que para todos é relacionado a talento e sorte. Tanto que a maioria dos que tocam algum instrumento musical considera a atividade como hobby. Eu, na verdade, ao notar o prazer imenso que tocar me proporcionava, resolvi viver da música e conquistei o mundo com um violão no colo. Mas o amor pela leitura e livros seguiu paralelo. Tenho quatro tias professoras de língua portuguesa. Graças a esse parentesco, cresci rodeado de livros e aprendi a dar um valor inestimável a eles. Pequeno, já tinha lido todos da série Vaga-lume. Lembra? Marcos Rey era meu escritor favorito. Uma tia, a Regina, percebendo meu interesse me fez ler alguns clássicos, Machado, Veríssimo, etc. Meu primeiro livro de presente foi Papillon e depois um dicionário. Mas ainda a música era o filão principal, a fração maior de minha atenção. A literatura era a paixão platônica, a amante. Vez ou outra ganhava um concurso de frases, um de poesias, redações. Gostava de escrever, mas não me imaginava escritor. Até que muitos anos depois, eu já estava bem estabelecido na música e comecei a escrever um livro. Era um trabalho de faculdade. Mas ficou grande demais e se transformou no Conspiração Nazi. Rapidamente, consegui vender a pequena tiragem e até fui parar em um stand na Bienal do livro de São Paulo em 2016. Infelizmente, a editora que produziu o livro não acreditou no potencial de vendas do livro. E aconteceram situações inversas. Eu, na correria para divulgar o livro acabei abrindo caminho para a editora. Os booktubers que faziam resenhas para mim, logo em seguida eram contatados pela editora para fazer resenhas de outros livros. Foi um momento que percebi que estava sozinho. Que tinha um bom produto, mas não tinha distribuição ou meios para aumentar o alcance das vendas. A editora era focada em poesia e em trabalhos de autores em domínio público, não estava interessada em atingir o público de meu trabalho. Apesar de gostar muito dos donos, notei que ali não daria mais frutos. E deixei acontecer. O que o futuro me reservava?

Como nunca penso pequeno e sempre me preparo para o futuro, comecei a analisar o mercado e descobrir qual o perfil de meus leitores e se seria possível viver da literatura. Descobri que o mercado é imenso. Apesar de todos os problemas que podemos ter: Sim é possível viver de livros. Escrevendo, revisando, fazendo palestras, etc. Existem cursos de leitura criativa, escolas, faculdades, etc.

Agora diga para mim, que vivi do Violão Erudito no País do Carnaval, do Funk. Viver da literatura é impossível? Não, não é! Acredito muito no potencial do meu trabalho. Consegui mais de mil curtidas em minha página do Facebook no boca a boca ou no tecla a tecla. Ainda não sei bem o que houve. Mas há um problema, meus livros esgotaram. Minha ambição? Viver de inventar! Inventar contos, personagens, situações, histórias, emoções, sentimentos. Viver da literatura, das palavras, dos livros. Criar um mundo onde as pessoas possam se refugiar. Dividir com meus leitores minhas opiniões, reflexões. Mas como em uma conversa de bar. Sem soberba, sem verdades absolutas. Só viver o momento entre o derrame da cerveja no copo e o primeiro gole. Se nesse momento em uma gota de suor do copo uma vida inteira acontecer em um mundo microscópio bem. Se não, amém. Mas sobretudo, quero me divertir!

O sonho? Não sei..., mas acho que está se realizando!

#literatura #opinião #cinema #culturapop #música #divagação #escrita #opinião

 

Philosophus Tavernisticus #5

 

Klaatu Barada Nikto

 

 

Se esse título não tem efeito em sua memória, vejo apenas duas possibilidades: você é uma pessoa muito nova ou, caso contrário, não preza em manter elementos de cultura pop em suspensão no seu cérebro, para se referir, em rodinhas de conversas informais, à música, filmes, livros, séries, histórias em quadrinhos ora para fazer gracinhas ora para demonstrar que como todo bom nerd, está cheio de paralelos, analogias, comparações. Já vi usarem essas referências ao universo pop de todos os modos, para todas as finalidades. Desde puro esnobismo esquizofrênico intelectual; para impressionar amigos, amigas; até seduzir pretendentes. O que dá no mesmo: Pura vaidade.

Entretanto tal conhecimento serve, poucas vezes, para análises dessas artes da expressão humana. Como há uma retroalimentação de ideias, conceitos. Vez ou outra tudo se mistura. E tenho a impressão que, de certa forma, o humano – presença constante e cerne de toda criação artística - é o primordial assunto dessas expressões.

Sou fruto do meu tempo. Li literatura fantástica, não ficcional, utopias, distopias, realistas, especulativas. Assisti aos filmes baseados nessas literaturas. E nesse tempo de isolamento social, a arte me salvou, tomara que todos tenham sido salvos pela arte. Mas não vejo um renascimento cultural como dizem alguns otimistas. Talvez ao descobrirem uma cura tudo volte ao normal. Mas ao pensar nesse texto não quis seguir por caminhos de fluxos de consciências descrevendo minhas angústias, medos, falar de meus traumas, visões desse mundo desgraçado pela doença. Elevar as vozes que talvez soassem universais e não sendo herméticas atingiriam todos. Como a doença atingiu.

Preferi lembrar-me dos avisos do passado, das veladas vozes da consciência universal que através dos artistas nos avisam. Vamos tirar o véu, o verniz desses avisos.

Lembro-me de Platão e o Mito da Caverna toda vez que vejo noticiários, exercício de todos os dias para acompanhar as desgraças do novo normal do cotidiano da pandemia. Fake News são as sombras projetadas nas paredes da Caverna. Mesmo que não sejam falsas, nunca saberemos as verdades absolutas. Quem manipula as sombras que vem dos palácios do Olimpo Brasiliano do Cerrado?

Lembro-me de Philip K Dick que sempre questionou a realidade. Realidade que em suas danças midiáticas televisivas troca de parceiro de acordo com a tão citada Guerra de Narrativa. Parece-me Hemingway: “Quem estará nas trincheiras ao teu lado?” E isso importa?” Mais do que a própria guerra.” Tire suas conclusões. Não vou influenciar sua interpretação.

Lembro-me de histórias onde um personagem escrevia uma carta e colocava em garrafa, o mar se encarregaria de encontrar o destinatário. O termo navegar, hoje usado para explorar a internet, justifica essa lembrança. Somos náufragos em nossas próprias casas e a tecnologia nos aproximou desses heróis de idos tempos, perdidos e sozinhos em ilhas paradisíacas. Somos náufragos em nossos lares.

Lembro-me de Willian Gibson, Neuromancer, seu livro, fala de uma sociedade que vive em um mundo virtual, fala de deuses que ascendem no mundo virtual. Fala da alta tecnologia e da baixa qualidade de vida. E dá início a um subgênero de literatura chamado Cyberpunk. Nos anos oitenta era distante, irreal, especulação forçada, subliteratura, relegada a uma segunda classe literária. Hoje realiza a proeza de refletir as preocupações do momento histórico que está inserida, ao mesmo tempo, esses livros antecipam situações, possibilidades, eventos do futuro próximo ou longínquo. Situações que, muitíssimas vezes, se transformam ou inspiram realidades. Se isso não for literatura de altíssimo nível, primeiríssima linha, eu não sei, nem reconheço o que é.

Mas não farei desse texto um debruço sobre a função ou a qualidade literária da ficção especulativa ou científica. Chame-a como quiser. Como supracitado quero falar do material primitivo de toda arte. O Humano.

O ser que caminha nesse planeta - eu estou quase chamando de redondeta para irritar os terraplanistas – parece que sempre procurou respostas. E agora uma pergunta nos atormenta: Como será depois?, e, logo em seguida: Como será o mundo pós-pandemia? Não tenho respostas. Nem ninguém. Mas não consigo deixar de me lembrar de um filme que agora é emblemático. Não há como deixar de relacionar. Você já deve ter adivinhado. Sim. Estou falando de “O Dia Em Que a Terra Parou”.

Vou dar uma resumidinha. No filme aparece uma nave – ela pousa em Washington - que pensam ser soviética. A história é de 1951; guerra fria iniciando; URSS x USA; testes nucleares. Aquele contexto horroroso. Klaatu (um alienígena) é baleado por um soldado que o julgava inimigo. É levado a um hospital, onde se cura rapidamente e recebe a visita do secretário de Estado dos Estados Unidos, a quem pede ajuda ao presidente para organizar uma conferência de líderes mundiais. O secretário encaminha sua proposta ao governo, que a recusa. Para qual motivo? Klaatu trazia um ultimato aos líderes da Terra, para que eles acabassem com as guerras e com a corrida armamentista, o que estaria preocupando os habitantes de outros planetas.

Mas o que isso tem a ver com a pandemia? No contexto sócio político do filme, que é verdadeiro, vemos o mundo à beira de uma possível destruição nuclear. Em um momento do filme, para demonstrar sua força e poder, em um dia, todos os aparelhos elétricos da Terra param de funcionar ao mesmo tempo.

Em nosso mundo, cenas parecidas ocorreram, devido ao isolamento social. Quem assistiu ao filme relaciona as imagens, não tenho dúvida. Ruas vazias, ruas sem trânsito. De uma hora para a outra a vida parou.

Outra coisa, que a pandemia me fez relacionar histórias de ficção científica, foi a queda da máscara de pessoas no poder, na mídia e a eterna estratificação social que rege as rédeas do mundo.

A doença só é democrática em relação ao contágio. Não escolhe quem contamina. Mas desnuda a violência da pífia qualidade de vida, a incapacidade de deixar de trabalhar na rua e fazer Home Office, a carência de cuidado e bem estar social propagada em palanques, mas nunca realizada.

Fala-se da Itália, da Inglaterra, dos doentes em Nova York. Mas e os países africanos? E as favelas? E o pobre que move a roda da sociedade? Queriam usar africanos como cobaias? Ainda vivemos o colonialismo? Neo Colonialismo?

Só espero em raros momentos de otimismo que tudo se recupere. Senão, no fim quem vai sobreviver serão os povos indígenas. Eles retomarão a terra que lhes foi tirada e, por puro merecimento, repovoarão a terra devastada. Com o respeito que ela merece, e, que penso, só ser lhe dado por esses povos dizimados, caçados, e sem voz.

Enfim, é uma pena ver que distopias são mais prováveis que utopias. Mas seguirei com fé.

#literatura #culturapop #cinema #livro #música #scifi #opinião

 

Philosophus Tavernisticus #4

 Carta de Amor (Não correspondido)

Atualizado: 14 de Set de 2020

Lorena, Um Dia qualquer...

Belíssima!

Desculpe a impessoalidade por escrever uma carta no editor de texto do computador. Acho tão impessoal quanto uma carta datilografada. Falta o cuidado, a escolha do papel, a pressão da caneta. Lembro-me da época em que lhe escrevia em folhas de papel vergê, com a gramatura escolhida de forma que o relevo das ranhuras da folha não atrapalhasse o deslizar da ponta da caneta. Cuidado que um frio teclado de computador não lhe oferece.

 

Esses detalhes estão implícitos no cuidado de quem ama verdadeiramente. São os detalhes que fazem a diferença no amor. E ao escolher o papel imaginava o toque de suas mãos ao ler a carta. Claro que seus olhos passando pelas curvas de minhas letras seriam menos machucados pela luz branca de um editor de texto, o amarelado do papel, lhe seria uma carícia também.

 

Desculpe a prolixia. Fico fazendo rodeios explicando meus métodos, pois eles podem ser explicados, esclarecidos. Meus sentimentos não. Não posso descrever a saudade, nem relatar qualquer emoção nascida da distância. Qualquer emoção não representaria a mensura impossível da verdade de minhas emoções.

 

Ensaiei anos fazer essa carta. Queria dizer-lhe o que escrevo, olhando em seus olhos, medindo suas reações, mas o destino não quis assim. Lembro-me da última vez que a olhei. Lembro-me do que vestia, dos assuntos que conversamos. Lembro-me dos seus gostos e de seus sabores. Lembro-me de tudo. Mas nada fez diferença. O destino não quis assim. Mas essa máxima é a fala dos amantes frustrados, perdidos, dos não correspondidos. Porque o amor é apenas mais uma escolha. Não o amor puro, idealizado. Mas esse amor que você dizia sentir por mim. No fim não fui a sua escolha. Não há destino. Nosso caminho é fruto de nossas escolhas. E no momento que o caminho propôs uma escolha, não fui escolhido. Talvez, eu, também não escolhesse você. Talvez o significado de amor seja tão concebido de forma errônea que ao ser exigido verdadeiramente a pessoa descubra que não ama ou nunca foi amada. Amor significa anulação, doação, querer bem. E se a escolha for movida por algo que diga respeito apenas a você: Voilà! O amor é próprio apenas. É egoísta. É o amor pelo peixe. Eu amo peixe. Tanto que o mato para comê-lo e satisfazer a minha vontade, a minha fome. Isso não é amor.

 

Desculpe-me, Belíssima. Mas você apenas foi minha musa, minha motivação e inspiração. Nunca lhe amei e nunca fui amado. Apenas nos servimos, carnalmente, em função de hormônios em ebulição. Desculpe-me, as putas me foram mais sinceras. Obrigado pelo seu corpo. Não lhe pago em dinheiro, pois meu corpo fui sua paga.

Que a vida dê um coração novo,

Escrito por aquele que você não amou.

 

Philosophus Tavernisticus #3

Narratologia

Atualizado: 29 de Ago de 2020

 

A primeira vez que escutei ou li esse termo foi há uns oito anos, quando estava começando a escrever meu primeiro livro: Conspiração Nazi. À época pesquisava sobre ficção, literatura e tudo que se relacionava. Esse estudo das estruturas das narrativas ficcionais ou não ficcionais procura descrever o funcionamento e demonstrar seu mecanismo. Traduzindo: Narratologia é a Gramática dos textos narrativos.

A Narratologia examina o que as criações literárias têm em comum entre si e aquilo que as distingue enquanto narrativas.

Quando notei nas pesquisas que tudo era regido por regras. Acabei por desejar quebrá-las. E fiz um livro que discute, sem pretensão nenhuma, esses modelos.

Bom, houve quem entendeu e se divertiu. Houve quem não gostou. Mas isso que é legal. As quebras de paradigmas não são absolutas, não são unânimes. Eu fiz um livro dentro de outro. Um universo dentro de outro. Que hora ou outra conversam entre si e também com o nosso.

Tudo feito na mais pura e sincera intenção de divertir. Primeiro a mim mesmo. Como cito no livro. Porque eu sou a primeira audiência. E depois ao incauto leitor de minha obra.

Hoje tenho mais experiência com essa seara do conhecimento, mas nada que influencie meu modo de escrever. Ainda quero quebrar regras, mas, como sempre falo para meus alunos: Sem menosprezar quem hipoteticamente leia meus livros. Quero surpreender com elementos novos de estrutura, tramas, reviravoltas. Todavia, sem esconder informações e lá no fim surgir com uma resolução Deus Ex Machina.

Então, terminei o livro, publiquei e deu certo. Acabei de publicar a continuação e ainda estou pensando se publico a terceira parte ou se amplio o universo. Vamos ver como vai ser.

Nesse período, em que estudava e pesquisava para o livro, pensei em outra coisa. Lembrando que nada que fiz é original. Essas ideias que tive outras pessoas já tiveram, mas acho interessante contar a experiência. Voltando... A outra ideia que tive e que acabou virando meu livro "Cenas de um crime”.

A princípio fiquei preocupado se teria condições de criar outras histórias, além das que já tinha, e comecei oito “protolivros”. Ideias “plantadas”, como definiu George Martin, para ver, se regadas, como cresceriam. Aos poucos quis dar um elemento que unisse a todas: uma cidade, ou época, um crime, uma pessoa. Qualquer coisa que unisse a todos os personagens, mas que ao mesmo tempo não tivesse nada a ver com eles no início das histórias. Seriam eventos diferentes que em determinado momento se ligariam, mas escolhas feitas pelos personagens poderiam fazer com que confluíssem ou não. A ideia era começar oito jornadas distintas que talvez se encontrassem. Escrever oito livros independentes que “conversam” entre si.

Engraçado que aos poucos fui desenvolvendo situações onde tudo confluía. Virou uma planta que ao jogar a semente sequer imaginasse qual fruto seria. E muitos galhos, ramos, raízes foram aparecendo, e o universo do Conspiração Nazi se chocou com a ideia do Cenas e tudo virou uma loucura.

Provei a mim mesmo que é possível criar indefinidamente. A única regra é ler muito, aumentar muito nosso repertório. E se preocupar mais com regras em relação aos horários que você vai escrever que achar que vai ficar sem ideias. Ainda estudo Narratologia. Ainda tenho muita coisa para aprender, conhecer. E sempre acreditar que podemos expandir qualquer universo literário. A começar pelos nossos próprios limites.

Até mais!

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Guto Domingues

 

 

#cinema #literatura #culturapop #teoria #opinião #livro #universoexpandido #litetaturanacional

  Philosophus Tavernisticus #31 Essa semana não li nada diferente nem assisti a algum filme novo. Na verdade, gosto de ver filmes que assi...